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Como a entrada de Diego ajudou o Flamengo a retomar o controle no jogo do bi da Libertadores

Jake LaMotta não era tao forte ou tão rápido com a maioria dos boxeadores nos anos 1950. Ainda assim, ele foi memorável a ponto de ser o primeiro a vencer Sugar Ray Robinson e era a inspiração de Rocky Balboa pelo estilo no ringue: apanhava e apanhava, e quando parecia vencido, desferia golpes fatais que ninguém esperava. Foi nesse mesmo roteiro que o Mengo venceu sua segunda Libertadores.

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Com um rival muito melhor durante 65 minutos de jogo, chegando ao ataque e empilhando chances. O segundo gol parecia ser questão de tempo, os minutos finais se aproximavam quando dois simples golpes decretaram a vitória tão sonhada nos últimos 38 anos.

Flamengo x River Plate — Foto: Reuters

Todo mundo precisou ser como o pugilista imortalizado por Robert DeNiro no cinema. Gabigol errava passes fáceis até fazer os gols. Filipe Luís falhou duplamente no gol e melhorou demais. Bruno Henrique foi anulado e fez a jogada.

Mas ninguém foi tão LaMotta que Diego Ribas.

A entrada do tão criticado meia mudou o jogo taticamente e deu o controle do meio-campo ao Flamengo. Não obstante, foi dele a pressão em Pratto que fez o time retomar a bola do primeiro gol. Foi dele a ligação direta no segundo gol.

Encaixes individuais e MUITA pressão na bola: River anula Flamengo

Ficou claro que o controle era do River quando o jogo começou. Intensidade, pressão…o Flamengo sentiu demais a estratégia de Gallardo. A lógica era não fazer a bola chegar até Gabigol e Bruno Henrique. Por isso, o River escolheu avançar e sufocar a saída de bola do Flamengo a partir de Willian Arão e Gérson. Quando eles recebiam a bola, era marcados por dois ou mais jogadores, e um detalhe fazia a diferença: quem estava por perto era acompanhado individualmente.

Veja o exemplo abaixo: Arão busca a bola entre os zagueiros e o River avança sua marcação até ele. Os dois atacantes estão atrás de Willian, e Borré pressiona ele. Logo abaixo, Rafinha levanta o braço e pede jogo. Veja que há um espaço imenso no lado direito, muito porque o River Plate não joga com pontas, mas sim num losango no meio-campo, circulado em amarelo. A lógica é sempre jogar onde há espaço, e aqui a melhor opção parece ser a direita.

River avança o meio-campo — Foto: Leonardo Miranda

Só que esse espaço era "dado" para ludibriar o Flamengo para o River fazer o que mais gosta: pressão na bola. Veja que o losango se desmancha e o time passa a marcar individualmente as opções de passe do Flamengo, com destaque para De La Cruz: ele corre antes mesmo do passe ser feito. Ao mesmo tempo, Casco acompanha Éverton Ribeiro, e Borré vai marcar Rodrigo Caio. Isso cria uma teia tão intensa que o Flamengo até pode ter espaço, mas não tinha ninguém livre para jogar.

River Plate aperta o Flamengo — Foto: Leonardo Miranda

A pressão do River era tão intensa que o jogo não passava do meio-campo. E foi assim por 65 minutos, em todos os lados do campo. Vamos para o lado esquerdo. Filipe Luís está com a bola, Arrascaeta e Bruno Henrique aproximam. O que o River faz? Pressiona a bola e quem está perto dela. Veja que essa marcação produz algumas consequências como deixar Gabigol no mano-a-mano. É um perigo? Sim! Mas é um risco calculado. Se tem pressão na bola, então o Gabigol poderia estar sozinho no deserto que ele simplesmente não receberia a bola para fazer a diferença.

Pressão do River — Foto: Leonardo Miranda

O Flamengo é tão bom que tem movimentos coordenados para mexer com essas marcações. Como Filipe Luís descendo pelo meio para Bruno Henrique ficar aberto e receber a bola como um autêntico ponta. Só que a pressão do River era ainda mais intensa. Do nada, Suárez chega no setor e vai marcar Filipe. É só contar: tem dois no Filipe Luís, um marcando uma linha de passe na direita e outra na esquerda. Éverton Ribeiro gira e é marcado. Arão aparece para ajudar e é acompanhado de perto. Gabigol continua no mano-a-mano, e há um imenso espaço na frente da área do River…tudo calculadíssimo porque a pressão na bola afastava o Flamengo de chegar nos jogadores criativos.

River cria superioridade numérica contra o Flamengo — Foto: Leonardo Miranda

Sem Gérson, Flamengo perde a conexão entre defesa e ataque

Quer um exemplo claro dessa estratégia? O Flamengo errou 26% dos passes que tentou no jogo, um percentual muito maior do que o normal de apenas 8% com Jorge Jesus! Essa intensidade fez o Fla perder o meio e finalizar apenas quatro vezes até os 65 minutos de jogo. Gérson, o meia de ligação entre defesa e ataque, sentiu DEMAIS o jogo. Errou 27 dos 48 toques na bola que deu, uma taxa ALTÍSSIMA pra um jogador tão importante ao time.

Mas não era apenas em anular o Flamengo que o River estava preocupado. Entender a tática no futebol é entender que tudo tem uma causa e uma consequência. Subir com sete ou oito jogadores fazia o River pressionar e posicionar os atacantes estavam acima da linha da bola,. Se eles recebessem após uma roubada, poderiam sair na cara do gol. Ou se sai um passe que alguém não intercepta, como no lance do gol, o perigo gerado era maior.

Pressão na bola do River era intensa demais — Foto: Leonardo Miranda

Era um jogo no qual a capacidade de apanhar que LaMotta tinha precisava estar nesse time. Desse elenco, quem foi o jogador que mais "apanhou" desde que chegou ao Flamengo?

Diego ajuda o Flamengo a retomar o controle do meio

O Flamengo precisava fazer a bola chegar aos meias. Gérson sentiu, e Diego entrou em seu lugar preenchendo a mesma função. O que mudou era a forma como o River lidou com isso. Muito provavelmente por ser um camisa 10, ninguém imaginava que ele atuaria próximo da bola, na chamada "base da jogada". Por isso nenhum jogador encaixava nele, que aparecia sempre livre.

Diego entra e muda a forma do Flamengo chegar ao ataque — Foto: Leonardo Miranda

Isso fez Diego ser a melhor opção para o Flamengo atacar. Todos os ataques passavam por ele, que escolhia entre voltar para a defesa, acelerar…foi o pensador que faltava em Éverton e especialmente Gérson. Diego escapava dos encaixes e bagunçava eles com passes para jogadores que estavam livres e mais à frente, como aqui, no qual o simples passe para Arrasca faz Gabigol e Éverton ficarem livres do encaixe. Quase sai o gol.

Giro de Diego foi fundamental ao Flamengo — Foto: Leonardo Miranda

Também ajudava na saída de bola, onde o Flamengo ficava mais apertado. Quando saía do meio e ia para a defesa, o encaixe do River demorava a chegar. Ele tinha tempo para receber a bola.

Diego quebra os encaixes — Foto: Leonardo Miranda

Diego também era mais intenso na marcação. Foi dele o combate em Pratto que o fez perder a bola do primeiro gol. E foi dele a bola longa, quando estava pressionado, que originou o segundo gol.

Diego foi muito Jake LaMotta. E esse título tem muito a nos ensinar sobre como o futebol pode nos tornar humanos melhores.

Diego foi a primeira grande contratação do "novo" Flamengo, um clube de massa, mas que sempre foi incapaz de capitanear isso em renda e estabilidade financeira e política. A mudança de chave foi em 2013, com a chegada de Eduardo Bandeira de Mello e um novo pensamento, alinhado com a necessidade de estabilidade que o futebol cada vez mais pede. A primeira tentativa de traduzir isso ao futebol foi com Mano Menezes, construtor de processos que pediu para sair pela bagunça política. Depois com Muricy Ramalho, que veio querendo resgatar o futebol de 81 e parou em sua saúde. Nenhum deles criou grande empatia. Tampouco Bandeira, chamado de "banana" por muita gente.

Diego foi o primeiro grande símbolo do novo Flamengo, o primeiro a realmente ter identificação, algo que o flamenguista valoriza demais.

Diego Aleves, Everton Ribeiro e Diego levantam taça do título do Flamengo na Libertadores — Foto: Reprodução

Ainda assim teve muito mais dias de luta na boa campanha de 2016 que não foi páreo para o Palmeiras, ou nos dois vices de 2017 no qual foi injustamente apontado como o culpado que todos adoramos. Titular absoluto e contestado por tudo e todos, teve lesão difícil e aceitou ser banco e ajudar o time de muitas maneiras. Assim como Willian Arão, que sofreu com vídeos descontextualizados apontando erros no Twitter e tantos outros que precisaram, tal como LaMotta, a apanhar muito de quem nem sempre entende para sorrir depois. Esse título é de Diego, Bandeira e Arão assim com de Jorge Jesus, Gabigol e Filipe Luís. Esse título é principalmente do processo que todo clube precisa ter no Brasil.

Arão — Foto: Ivan Raupp

O Flamengo precisou de muitas derrotas, algumas doídas como as para o Palmeiras e Cruzeiro, para chegar até aqui. Mas não era indício de que tudo estava errado quando perdeu. Afinal, só cheira quem está perto, e a construção de um novo clube que começa em 2016 poderia ter sido mais calma. Arão sempre teve sua importância. Bandeira nunca foi banana. E Diego Ribas sempre foi o que dele se pode esperar: um jogador decisivo.

Nossa vida já é um ringue de dificuldades e sonhos perdidos para sempre ver as coisas pelo lado negativo. Ver as coisas pelo copo mais cheio pode ser libertador…como é libertadores ser bi da Libertadores após 38 anos!

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Fonte: https://globoesporte.globo.com/blogs/painel-tatico/post/2019/11/24/como-a-entrada-de-diego-ajudou-o-flamengo-a-retomar-o-controle-no-jogo-do-bi-da-libertadores.ghtml

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