Aos 69 anos, Zico preocupou fãs do mundo todo quando entrou em campo por alguns minutos no Jogo das Estrelas em dezembro. A imagem do ídolo do Flamengo e da seleção brasileira com dificuldade de andar, pouco antes de uma cirurgia no quadril para a colocação de uma prótese, é outra quatro meses depois.
Recuperado, se reaproxima a passos largos de uma vida normal, e agora volta atenções aos netos e projetos no Brasil. O ex-jogador recebeu o GLOBO no CFZ para um papo descontraído antes de encontrar amigos em um samba. Na véspera, fez questão de ir ao Vasco na homenagem ao amigo Roberto Dinamite, que luta contra um câncer, e ganhou estátua.
Sobre o Flamengo, não citou nomes, mas deixou clara a insatisfação com os rumos do futebol e não se mostrou favorável aos métodos do técnico Paulo Sousa.
Como acompanhou a recuperação do Roberto?
A gente sempre se fala. Agora é o principal jogo, o jogo da vida. A gente sabe da gravidade do problema, mas tem que ter fé, acompanhar e ter discplina. Tenho sempre mandado mensagens boas, mas ele tem cabeça boa. Depende do paciente ter fé e acreditar que vai vencer, ele é um desses.
E você ainda poderá jogar uma pelada?
Acho que ainda pode ser que dê para brincar um pouco. Com netinho, até mesmo com os coroas. O remédio que eu tomo é para o joelho. É a minha preocupação. Se caminho uma hora, boto gelo. Em termos de recuperação, o que eu sofri no joelho (em 1986, como jogador), o quadril é pinto.
E o trabalho no Kashiwa, no Japão?
Eu saí do futebol. Para não cortar de vez, me botaram como conselheiro, vou lá duas vezes por ano. Vou agora (hoje) e depois em outubro. Está muito longe também. Quase 70 anos. Última viagem levei 40 horas. O médico pediu pra tomar remédio para trombose. Cansa mais a idade, por mais preparado físico que tenha…
Como foi sua vida dentro desses três meses de recuperação pós-pandemia?
Na época da pandemia braba, eu vim em março para meu aniversário em 2020, explodiu aquele negócio todo. Os caras do Japão acharam melhor não ir. Eu não me preocupei com a pandemia, me preocupei em curtir a minha casa. Foi a primeira vez em 40 anos de casado que dormi e acordei todo dia. Curtindo a minha casa. Que construí para minha família se divertir. Mas eu curtir as minhas plantas, a piscina, aproveitei isso, que minha vida não teve. Foi a primeira vez. Cuidava das coisas, o dono que engorda o gado né… Curti a minha casa, melhorei do jeito que queria, e curti a Sandra. Não teve esse negócio de não pode ver família. Não pode é o caralho. Vem pra cá todo mundo. Para funcionar isso, tem funcionários na sua casa. Que tem que consertar as coisas. Pessoas que andam de trem, BRT. Não tivemos um caso lá em casa, não teve um que pegou.
Você não pegou Covid?
Eu fui pegar esse ano, em janeiro, mas naquela que os caras fizeram tudo que é aparelho dar positivo. Teve um período aí que acho que tava todo mundo querendo que todo mundo tivesse, e aí dava positivo em todo mundo. Eu e a Sandra fizemos, deu postivo, sem sentir nada em casa, três dias depois fez o exame e não tinha mais. Ficou aquela dúvida se foi lá no Clube Med, porque teve um evento com 80 caras de torcida. Nem falei nada nda época, fiquei três dias em casa, já estava mesmo.
Então para o futebol o Zico parou fora das quatro linhas também?
Os torcedores do Flamengo sempre perguntam. A gente tem sempre descartado. Em 2010 foi para ter certeza que não era pra ser. Só assumi aquilo pois não tinha um centavo do Flamengo. A Patrícia (Amorim, presidente) era uma atleta, a gente torce para que dê certo, fui com essa intenção, de tentar ajudar. Mas o problema político atrapalhou. Mesmo ela não sendo responsável pelo cara que fez as merdas estar no Conselho Fiscal, ela tinha o contato. Não quis ficar de um lado ou do outro, lavo as mãos, deixa a gente se pegar. Ela fez uma coisa boa, acabar com esse negócio de fatiar passe de jogador. Tinha jogador lá que tava no plantel e o Flamengo tinha zero. Como bota e valoriza um cara e o clube não tem direito a nada? Chamei e menino e falei pra ele correr atrás. Pois não ia jogar nunca. Era inadmissível. Titular da base o Flamengo não tinha nada, tudo de empresário.
O clube melhorou o trabalho de base que hoje sustenta o time, né…
Eu fiquei quatro meses mas organizei aquilo lá. Fiz um organograma da base, que era o que mais me empolgava. Peguei o Noval, ele era o cabeça, resolvia tudo. Está até hoje. Fez ótimo trabalho. Conheço a fomação moral, familiar, ama o Flamengo. Mas estava sem função. O trabalho de base dele é fantástico. É um cara sério, que tem amor pelo clube, não quer nada do clube. ele tem que ficar ali. Em cima tem muita vaidade.
O torcedor ainda cobra profissionalização do futebol. Concorda?
Flamengo adotou uma política. Forma jogador, vende porque está com preço caro, e compra jogadores. Deu certo em 2019. Mas será que vai continuar dando certo? Mas onde eu entro ali? Onde entra a questão pra mim? A vaidade. Se faz um time de base e dá certo, o trabalho é da base, não o meu. Se eu vendo, trago gente, é o meu trabalho. Comprou pronto. Foi o que aconteceu com nossa geração. O que o Flamengo gastou com a gente? Hoje o Flamengo gasta. Tem outra estrutura. A gente dormia um em cima do outro. Hoje todos têm contrato. O nosso era ajuda de custo.
O Flamengo não conseguiu criar uma era vencedora de novo por isso?
Naquela época, você ganhava, se valorizava, mas não tinha a ambição de sair. Em 2019 teve um desmanche, saiu Mari, Rafinha, Gerson, Reinier. O Jorge Jesus usou muito o moleque. Até o Lincoln decidiu jogos com ele.
Mas você acha o elenco nas mão do Paulo Sousa tão bom como se fala?
Eu sempre fui contra negócio de rodízio. É bom na churrascaria. Sou totalmente contra. Como técnico a mesma coisa. O jogador quer jogar. O que ele deixar de jogar às vezes vai treinar mais que se fosse o jogo. Se vai treinar firme, porque não pode jogar? No jogo é olho no olho. Se machucou, dane-se. Pra mim, meu time é esse e esse que vai jogar. Com Jesus entrava sempre o mesmo time, quando precisava tirava um ou outro. Futebol é conjunto. Coletivo. Quando mais treina junto, mais você joga junto, mais você une.
Sente falta da camisa 10 em campo?
Hoje cada um escolhe a sua. Posição que é importante. A meu ver, por exemplo, o Arrascaeta jogava numa posição diferente com o Jorge Jesus. Acho que o Flamengo hoje não pode abrir mão desse quarteto (Gabi, Bruno Henrique, Arrascaeta e Éverton Ribeiro). Num jogo um ou outro não está bem, mas eles se entendem de olho fechado. E eles todos querem jogar. Quando você ganha, tem mais vontade de jogar. Nosso time queria estar em campo todo dia. Estava feliz. O coletivo faz correr menos, estava sempre organizado para atacar e defender, o desgaste é menor. Se está espaçado, cada dia um time, hoje o Rodinei, amanhã o Isla, depois o Matheuzinho. Cada um tem uma característica, uma maneira de ser. Futebol é assim.
É essa cultura que o Paulo Sousa e os portugueses não entendem?
Essa cultura não é do português, é do futebol europeu, acham que o jogador tem que saber jogar em tudo que é faixa de campo. E não é assim. O Neymar é um dos melhores do mundo O técnico do Barcelona botou ele na direita e foi o pior momento dele. Igual na seleção. Bruno Henrique passou o ano inteiro como melhor do lado esquerdo. Tite convoca e ele joga na direita. O conceito europeu tem que ser de decisão. Não só de posicionar. De não deixar o adversário respirar, drible, intensidade. Veja o City jogar hoje. Vinicius Junior estava lá, pegou um italiano no Real Madrid (Ancelotti), começou a ir pra cima, é outro cara. Vai botar o Marinho pra marcar lateral? Tem que ver o estilo do cara e onde rende bem. Não é igual ver um peladeiro e querer aperfeiçoar as suas deficiências. Tem que aprimorar o que tem de bom. Deficiência deixa de lado. Tem que explorar o que tem de melhor.
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